quarta-feira, 6 de junho de 2012

Dr. Johnson: Ye Olde Cheshire Cheese

Minha querida amiga Kyky, leitora deste blog, enviou-me estas fotos, de uma viagem recente a Londres.

Na verdade ninguém sabe dizer ao certo se o Dr. Johnson frequentava ou não o Ye Olde Cheshire Cheese. Esse pub não é mencionado nenhuma vez no Life of Johnson, por exemplo. Mas, de qualquer forma, é verdade que Johnson morou, por muito tempo, na Fleet Street (mais precisamente, na Gough Square), e gostava de frequentar os pubs e tavernas de lá.

Fleet St.

Além disso, o Ye Olde Cheshire Cheese (145 Fleet St) procura preservar a atmosfera dos velhos pubs londrinos. Dizem que Mark Twain, G. K. Chesterton, Charles Dickens e Arthur Conan Doyle – entre outras celebridades - eram frequentadores habituais.

Eis a placa indicando aquele que seria o banco favorito do Dr. Johnson:

EU1762

O banco de Johnson fica juntinho à lareira:

DSC09073

Mais algumas fotos do interior do Ye Olde Cheshire Cheese:

Olha o Dr. Johnson lá no fundo!

Dá pra imaginar o Dr. Johnson e seus amigos conversando num lugar como esse, falando mal de todo mundo e dando boas risadas…

Na Wikipedia há um retrato muito interessante, com alguns dos membros do The Club, o clube literário do qual Johnson fazia parte. Clicando na gravura vocês podem chegar a essa página da Wikipedia e ver quem era quem. Boswell é o primeiro a partir da esquerda; Johnson é o segundo.

JoshuaReynoldsParty Um detalhe interessante é que, depois da juventude, Johnson parou de tomar bebidas alcoólicas. Ele era, então, como meu avô, um boêmio que não tomava álcool. (Meu avô, João Santana, fez parte do grupo da revista modernista “Madrugada”, de Porto Alegre – um dia desses falarei mais sobre ele.) Como eu, Johnson era viciado em chá. (Meu avô preferia o café.) Mas acho que o mais importante era mesmo a conversa com os amigos!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Alguns tópicos em "Life of Johnson" - Parte 2

2) LITERATURA E TRADUÇÃO

Uma questão sobre poesia que sempre se discutia na época de Johnson era quais temas eram considerados apropriados. Johnson comenta sobre “The Fleece” (A Lã), de John Dyer: “Não há como tornar esse assunto poético. Como se pode escrever poeticamente sobre sarja e droguete?” Comentando sobre “Sugar-Cane”, de James Grainger, ele diz que não é possível se escrever poesia sobre cana de açúcar. Se fosse, por que não poderíamos escrever também sobre um canteiro de salsa, ou “A Horta de Repolhos, um Poema”?

Essas frescuras de “tema apropriado” e “decoro” eram típicas do neoclassicismo, que ainda exercia forte influência na época de Johnson e Mickle. Homero ou Camões não eram tão “delicados” quanto os neoclássicos. Por isso, nos séculos XVII e XVIII, os tradutores precisavam expurgar os clássicos de suas “grosserias”. Eu já havia comentado sobre isto aqui (Fitzgerald eliminando do Rubaiyat as referências a “pernas de cordeiro”; De La Motte cortando metade da Ilíada em sua tradução). Mickle, com certeza, fez isso com Camões, também. Falaremos sobre isso, um dia.

Sobre tradução, Boswell diz que não sabe defini-la nem compará-la a nada, mas que acha que a tradução de poesia só poderia ser imitação. Johnson replica: “Pode-se traduzir livros de ciência com exatidão. Pode-se também traduzir história, desde que esta não esteja adornada com oratória, que é poética. A poesia, com efeito, não pode ser traduzida e, portanto, são os poetas que preservam as línguas; pois nós não nos daríamos ao trabalho de aprender uma língua se pudéssemos ler tudo o que foi escrito igualmente bem em uma tradução. Mas, como as belezas da poesia não são preservadas em qualquer outra língua além daquela em que foi escrita originalmente, nós aprendemos a língua”.

Outra conversa sobre tradução no grupo de Johnson:

Johnson: “Devemos avaliar o seu efeito como um poema inglês; é assim que se julga o mérito de uma tradução. Traduções são, em geral, para pessoas que não conseguem ler o original.” Boswell menciona a “opinião vulgar” de que o Homero de Pope não é uma boa representação do original. Johnson replica: “É o melhor trabalho que já foi produzido no gênero”. Boswell: “A verdade é que é impossível traduzir poesia com perfeição. Em uma língua diferente, podemos ter a mesma melodia, mas não o mesmo tom. Homero toca fagote; Pope, flajolé”. Harris (James Harris, político e gramático de Salisbury) acrescenta: “Acho que poesia heroica fica melhor em versos brancos; mas parece que o ritmo é essencial à poesia inglesa”.

Sobre os elementos pagãos das odisseias antigas (um tema que me interessa de perto), Johnson comenta: “O maravilhoso pagão não nos interessa: quando uma deusa aparece em Homero ou Virgílio, nós ficamos entediados; é pior ainda nas tragédias gregas, pois nesse tipo de composição é necessária uma maior aproximação com a natureza”. Apesar disso, ele via boas razões para que esse tipo de obra fosse lido, pela fertilidade da imaginação, a beleza do estilo e da expressão, assim como a curiosidade de entender o que encantava as pessoas naqueles países e naquela época. Mas “é evidente que ninguém que escreve agora pode usar as divindades e a mitologia pagãs”. Compreende-se, então, que o neoclassicismo estranhe tanto a mistura, em Camões, dos elementos pagãos e cristãos e que, nas traduções, procure suavizar a influência pagã. Por isso Mickle dedicou várias páginas da dissertação que acompanha a tradução de Os Lusíadas a explicar a presença dos elementos pagãos no poema e responder àqueles que criticavam essa presença – principalmente Voltaire.

Todos esses pontos que destaquei confirmam as impressões que eu já havia formado sobre o gosto da época.

Last but not least, Mickle. Ele é mencionado quatro vezes por Boswell em Life of Johnson. Em duas dessas vezes, Boswell se refere a ele como “Mr. Mickle, o tradutor de Os Lusíadas”, e em outra vez como “Mr. Mickle, o excelente tradutor de Os Lusíadas”. A primeira, a segunda e a quarta dessas menções são rápidas, do tipo “fui com Mr. Mickle à casa de fulano” ou “passei a tarde na casa de sicrano com Mr. Mickle”. A terceira menção é mais longa, consistindo em trechos de uma carta de Mickle escrita a Boswell alguns meses antes da morte de Mickle e vários anos após a morte de Johnson. Nessa carta, Mickle conta que conviveu com Johnson durante 12 anos e que Johnson sempre o tratou com muita amabilidade. Mickle relata uma discussão que tivera com Johnson durante a tradução de Os Lusíadas. Johnson dissera a Mickle: “Teria sido melhor para o mundo se o seu [Vasco da] Gama, o seu príncipe Henrique de Portugal e Colombo nunca houvessem nascido, e seus planos não tivessem ido mais longe do que suas próprias imaginações”. Mickle diz que foi essa declaração de Johnson que o estimulou a escrever a sua longa (longuíssima!) Introdução à tradução de Os Lusíadas, na qual, inclusive, cita essa mesma discussão e a frase de Johnson. Quando a tradução foi publicada, o Dr. Johnson comentou com Mickle: “O senhor se lembrou da nossa discussão sobre o príncipe Henrique, e também me citou. O senhor cumpriu a sua parte muito bem, com efeito: desenvolveu o seu argumento da melhor forma possível; mas ainda não estou convencido”.

Mickle conta também que o Dr. Johnson lhe teria dito, em 1772, que, cerca de 20 anos antes, ele próprio havia pensado em traduzir Os Lusíadas, obra em que via grande mérito, mas fora impedido devido a outros compromissos.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Alguns tópicos em "Life of Johnson" - Parte 1

Terminei de ler o Life of Johnson. Acho até que vou sentir saudades. Acostumei-me à presença do grandão. Autoritário e extremamente conservador, mas também generoso. Sempre dizia o que pensava, o que o tornava ao mesmo tempo temido e… fascinante.

Vou tentar fazer uma síntese dos pontos do livro que apresentam maior relevância para a minha tese. Nesta primeira parte falarei dos aspectos políticos e sociais; na segunda parte, de alguns tópicos ligados à literatura e tradução.

1) ASPECTOS POLÍTICOS E SOCIAIS

Deu pra sentir o quanto a Inglaterra da segunda metade do século XVIII era conservadora – pelo menos em comparação com os ideais democráticos que surgem com a Revolução Francesa e a Independência Norte-Americana. Mesmo que consideremos que Johnson fosse reacionário para a sua época, o fato de a opinião dele ser tão valorizada, inclusive politicamente, corrobora o reacionarismo do ambiente em que ele (e Mickle) viviam.

Algumas pérolas do pensamento sócio-político de Johnson (incluindo algumas do biógrafo, Boswell, por tabela):

- “Pobre não tem honra.” Ou seja, um homem rico podia alegar a “defesa da honra” se cometesse um assassinato, mas um pobre não podia fazer o mesmo.

- “Sou amigo da subordinação, como o que mais favorece a felicidade da sociedade. Há um prazer recíproco em governar e ser governado.”

- “Se todas as distinções fossem abolidas, o mais forte não mais se submeteria, mas tentaria obter superioridade por meio de sua força física. Mas, como a subordinação é muito necessária para a sociedade, e as disputas por superioridade muito perigosas, a humanidade, ou seja, todas as nações civilizadas, entraram em acordo a respeito de um princípio invariável comum. Um homem nasce em uma posição hereditária; ou então, ao ser nomeado para certos postos, adquire uma certa posição. A subordinação favorece em muito a felicidade humana. Se todos fôssemos iguais, não teríamos nenhum outro divertimento além do mero prazer animal.”

- Não há como negar que ele sabia usar de seu humor ferino para defender suas posições. Ele conta que, certo dia, na casa de Mrs. Macaulay, “uma grande republicana”, ele lhe disse: “Senhora, eu agora me converti ao seu modo de pensar. Estou convencido de que toda a humanidade está em pé de igualdade e, para lhe dar uma prova incontestável de que estou falando sério, aqui está um cidadão muito sensato, civilizado e bem-comportado: o seu lacaio [footman]. Desejo que ele seja autorizado a se sentar e jantar conosco”. Johnson comenta, então, ao relembrar a cena: “Desta forma, eu mostrei a ela o absurdo da doutrina da igualdade. Desde então, ela deixou de gostar de mim. Os defensores da igualdade querem baixar o nível dos que estão acima deles até o seu próprio nível, mas não querem elevar o nível dos que estão abaixo até o nível deles mesmos. Todos querem ter algumas pessoas abaixo do seu nível; por que, então, não deveria haver algumas pessoas acima deles?”

- “Os seres humanos são mais felizes em um estado de desigualdade e subordinação. Se fossem colocados em estado de igualdade, logo denegerariam em animais. [...] Todo o aperfeiçoamento intelectual vem do lazer; todo lazer vem de um trabalhar para o outro.”

- Apesar de discordar das ideias de Rousseau, Boswell simpatizara com ele, ao conhecê-lo pessoalmente, e pergunta a Johnson se considera, realmente, Rousseau uma má pessoa. Johnson se irrita muito e responde: “Considero-o um dos piores homens; um canalha que deve ser expulso da sociedade, como tem sido. Três ou quatro nações já o expulsaram, e é uma vergonha que ele seja protegido neste país”.

- Boswell então pergunta a Johnson se considera Rousseau tão ruim quanto Voltaire. Johnson responde: “É difícil fixar a proporção de iniquidade entre esses dois”.

- Boswell defende os norte-americanos em sua luta pela independência, mas Johnson se irrita só de ouvir falar neles: “Eu me disponho a amar toda a humanidade, exceto os norte-americanos”.

- Além do preconceito contra os norte-americanos, Johnson também desprezava os escoceses. É preciso reconhecer que, mesmo assim, ele se tornou amigo de vários escoceses, como o próprio Boswell. E Mickle, embora este não fosse assim tão próximo de Johnson.

- Quanto aos povos orientais (East-Indians, como eram chamados pelos ingleses da época), Johnson os considera “uns bárbaros”. Boswell pergunta se ele não abriria uma exceção para os chineses, pois estes haviam desenvolvido alguma arte. Johnson responde, em tom de desprezo, que a arte dos chineses se limita à cerâmica...

- O machismo também imperava na Grã-Bretanha do século XVIII. Quando uma certa Mrs. Knowles, uma Quaker, o questiona a respeito da diferença dos níveis de liberdade entre homens e mulheres (por exemplo, em termos de necessidade de manter fidelidade no casamento), Johnson responde que “se exigimos mais perfeição das mulheres do que de nós mesmos, estamos lhes prestando uma homenagem. E as mulheres não têm as mesmas tentações que nós temos: elas podem viver sempre em companhias virtuosas; os homens devem se misturar ao mundo de forma indiscriminada. Se uma mulher não tem propensão a fazer o que é errado, ser impedida de o fazer não é uma restrição a ela”. Mrs. Knowles insiste em que há mais tolerância para com os homens do que para com as mulheres. Johnson replica: “É evidente, senhora, que um ou outro precisa ter a preferência. Como diz Shakespeare, se dois homens montam em um cavalo, um deles precisa montar atrás”.

- Tanto Boswell quanto Johnson chamam David Hume de “infiel”, pois Hume declarava não ter religião. E tanto Boswell quanto Johnson achavam inaceitável até mesmo conversar com um infiel! Boswell chega a dizer que um infiel como Hume merecia ser chutado escada abaixo. Johnson concorda com ele.

- Surpreendentemente, contudo, Johnson era contra a escravidão – ao contrário de Boswell. Johnson achava que a escravidão jamais poderia ser considerada o estado natural dos seres humanos: “Nenhum homem é, por natureza, propriedade de outro”.

- Quando Johnson não estava sendo sectário e dizendo coisas como “O Diabo foi o primeiro Whig”, ele até que era um bom filósofo político. Nesta análise, por exemplo: “Um Tory sábio e um Whig sábio, acredito, concordarão. Seus princípios são os mesmos, embora suas maneiras de pensar sejam diferentes. Um Tory radical torna o governo ininteligível; ele se perde nas nuvens. Um Whig violento o torna impraticável; ele permite tantas liberdades a todos os homens que não resta poder suficiente para governar nenhum homem. O Tory tende a favorecer demais a instituição; o Whig, a inovação. Um Tory não deseja conceder mais poder real ao governo; mas esse governo deve ter mais reverência. Assim, eles também diferem sobre a Igreja. O Tory não deseja conceder mais poder legal ao clero, mas deseja que ele tenha uma influência considerável, fundada na opinião da humanidade; o Whig quer limitá-lo e vigiá-lo com estreito ciúme”.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Que filósofo eu sou?

Normalmente eu não postaria uma quiz ou meme aqui, mas esta, com todas as suas limitações, simplificações e imprecisões, acertou na mosca, no meu caso.

Which philosopher are you?
Your Result: W.v.O. Quine / Late Wittgenstein
 

There is no provable absolute truth. The way you see things is dependant on your language. Truths exist only within a language, and change as the language does. --This quiz was made by S. A-Lerer.

Sartre/Camus (late existentialists)
 
Nietzsche
 
Early Wittgenstein / Positivists
 
Aristotle
 
Immanuel Kant
 
Plato (strict rationalists)
 
Which philosopher are you?
Quiz Created on GoToQuiz

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Mickle, Dr. Johnson, Patronato (III)

Continuando agora, então, a história de Mickle e seus (não) patronos.
Logo depois de se mudar para Londres, Mickle se esforçou muito para obter a ajuda de Lorde George Lyttelton (1709-1773), poeta e historiador do círculo de Alexander Pope, membro ilustre do parlamento e patrono de muitos poetas e escritores, entre os quais James Thomson e Henry Fielding. Assim como aconteceu com Johnson em relação a Lorde Chesterfield, os esforços de Mickle não deram em nada.

Mickle teve azar também na escolha do patrono para a sua tradução de Os Lusíadas. O patrono que escolheu, o Duque de Buccleugh, não deu nenhuma atenção a ele. Mickle não desanimou, no entanto: preparou um projeto de tradução de Os Lusíadas incluindo a tradução de parte do episódio do Gigante Adamastor (Canto V) e o enviou para The Gentleman’s Magazine, um influente periódico da época, que o publicou em março de 1771. Alguns meses depois, Mickle mandou imprimir em Oxford a tradução do Canto I como amostra para angariar assinaturas. Essas primeiras traduções foram muito bem acolhidas e possibilitaram a publicação da tradução completa quatro anos depois, com o financiamento de uma lista de quase 600 pessoas influentes do mundo político e religioso.

O financiamento das publicações por esse tipo de lista de assinaturas era prática comum na época. Johnson recorria a esse tipo de lista com frequência. Lawrence Venuti[1], ao falar sobre as traduções de Pope, assinala o século XVIII como o momento em que o sistema de patronagem dá lugar a esse tipo de publicação por assinatura: “O Homero de Pope manteve o refinamento de um discurso poético transparente no dístico heroico, ainda um elitismo literário entre as classes hegemônicas, menos dependentes da patronagem da corte do que de editores com listas de assinatura que eram agora cada vez mais burguesas em vez de apenas aristocráticas. Virou moda assinar a tradução de Pope: mais de 40% dos nomes nas listas de sua Ilíada possuíam títulos de nobreza, e os membros do parlamento incluíam tanto Tories quanto Whigs”. Esse tipo de lista continua sendo patronagem, pela ampla definição de Lefevere[2], embora o patrocínio se transfira, aos poucos, da aristocracia para a burguesia.

Voltando ao Dr. Johnson: com a ascensão ao trono de George III, Johnson passou a receber uma pensão de 300 libras ao ano, por “mérito literário”. Boswell conta que Johnson, a princípio, ficou em dúvida sobre aceitar ou não, considerando que havia definido “pensão” basicamente como “pagamento por serviços de traição ao país” e “pensionista” como “um escravo do Estado”… Ele acabou aceitando, depois que os emissários do rei lhe garantiram que a pensão era apenas uma homenagem por méritos passados e não implicava nenhum compromisso futuro. De qualquer forma, acho que isso corrobora a minha opinião de que a tal “Declaração de Independência da literatura” (Carpeaux) precisa ser relativizada.

Há muito mais a discutir dentro desse assunto (patrocínio na Grã-Bretanha do século XVIII), mas este blog não é o espaço mais adequado para desenvolver questões que necessitam maior aprofundamento. Assim, com esta post eu encerro, ao menos por ora, esse assunto. Continuarei comentando sobre pontos interessantes de Life of Johnson, no entanto. O livro tem 1496 páginas e eu estou apenas na p. 294.

[1] VENUTI, Lawrence. The Translator’s Invisibility. London and New York: Routledge, 1995, p. 66, tradução nossa.
[2] LEFEVERE, André. Translation, Rewriting, and the Manipulation of Literary Fame. London and New York. Routledge, 1992.

domingo, 29 de abril de 2012

O Dicionário de Johnson

O Dicionário foi, sem dúvida, uma obra admirável, ainda mais considerando-se que Johnson o fez praticamente sozinho. Ele trabalhava com seis secretários, é verdade, e recebeu ajuda de outros literatos em questões etimológicas – mas uma ajuda quase insignificante, diante das proporções da tarefa.

O Dicionário incluía também uma Gramática e uma História da Língua Inglesa. Uma das características que davam brilho ao Dicionário era que as 40 mil palavras que o compunham tinham o seu uso ilustrado pelos melhores autores desde a Era Elizabetana. O Dicionário teria, segundo Boswell, conferido estabilidade à língua inglesa.

Mas, como seria de se esperar, o Dicionário tem certas idiossincrasias. Algumas definições, reconhece Boswell, são erradas ou imprecisas. “Windward” (barlavento) e “leeward” (sotavento), palavras de sentido oposto, são definidas exatamente da mesma maneira: “towards the wind” (em direção ao vento). Sem maiores explicações.

Boswell conta que, certa vez, uma senhora perguntou a Johnson como ele havia chegado a definir “pastern” (quartela) como “joelho de cavalo”. Em vez de dar alguma resposta complicada, ele respondeu apenas: “Ignorância, madame, pura ignorância”. Esse erro foi corrigido alguns anos depois. Na versão do Dicionário que tenho aqui comigo, “pastern” está definido como “That part of the leg of a horse between the joint next the foot and the hoof” (parte da perna de um cavalo entre a junta próxima à pata e o casco).

A definição de “network” (rede) é um bom exemplo de como tornar obscuro algo que é aparentemente simples: “Any thing reticulated or decussated, at equal distances, with interstices between the intersections” (qualquer coisa reticulada ou decussada, a iguais distâncias, com interstícios entre as intersecções).

Muitas vezes Johnson deu sua opinião pessoal nas definições, o que, hoje em dia, seria considerado inaceitável. Ele definiu “Tory” como “One who adheres to the ancient constitution of the State, and the apostoIical hierarchy of the church of England” (alguém que adere à antiga Constituição do Estado e à hierarquia apostólica da Igreja da Inglaterra) e “Whig” como “the name of a faction” (nome de uma facção). Por aí já se vê com qual grupo ele se identificava!

Igualmente reveladora, a definição de “oats” (aveia) mostra o preconceito de Johson contra os escoceses: “A grain, which in England is generally given to horses, but in Scotland appears to support the people” (um cereal que na Inglaterra é geralmente dado a cavalos, mas que, aparentemente, na Escócia sustenta o povo).

Vocês podem ler outras definições curiosas do Dicionário de Johnson aqui. Observem, no entanto, como comentou o organizador dessa página, que esses são apenas alguns deslizes bizarros cometidos pelo dicionarista. Considerado como um todo, o Dicionário de Johnson é muito bom.

sábado, 28 de abril de 2012

Drinking Song to Sleep

Nada a ver com a mnha pesquisa de doutorado, mas vi a menção a essa canção em Life of Johnson e a achei divertida.

Drinking Song to Sleep

Great God of Sleep, since it must be,
That we must give some Hours to thee,
Invade me not while the free Bowl
Glows in my Cheeks, and warms my Soul;
That be my only Time to snore.
When I can laugh, and drink no more;
Short, very short be then thy Reign,
For I'm in haste to laugh and drink again.

But O! if melting in my Arms,
In some soft Dream, with all her Charms,
The Nymph belov'd should then surprize,
And grant what waking she denies;
Then, gentle Slumber, pr'ythee stay,
Slowly, Ah! slowly bring the Day,
Let no Rude Noise my Bliss destroy,
Such sweet Delusion's real Joy.

Lord Lansdowne