segunda-feira, 14 de março de 2011

Tradução e Poder (em Lefevere)

Antes de mais nada, algumas explicações para os novos amigos/leitores: a minha dissertação de mestrado tratou das ideias de Flusser sobre tradução. O doutorado, que estou iniciando agora, será sobre um tema completamente diferente: uma análise de uma tradução de Os Lusíadas para o inglês do século XVIII. Com certeza ainda falarei muito sobre o meu tema de doutorado, mas, por enquanto, não quero entrar em detalhes. Naturalmente, precisarei pesquisar muuuuuuito a respeito das traduções inglesas do século XVIII. (Já comecei.)

No momento, estou lendo um livro do André Lefevere, Translation, History, Culture: a sourcebook. Há vários pontos que me interessam já na Introdução. Ele começa dizendo (a tradução é minha, um tanto “apressada”): “Tradução tem a ver com autoridade e legitimidade e, em última análise, com poder, e é exatamente por isso que foi e continua sendo tema de tantos debates acirrados. A tradução não é apenas ‘uma janela aberta para um outro mundo’, ou qualquer desses clichês superficiais. Na verdade, a tradução é um canal aberto, muitas vezes não sem certa relutância, pelo qual as influências estrangeiras podem penetrar na cultura local, desafiá-la e até mesmo contribuir para subvertê-la. ‘Quando se oferece uma tradução a uma nação’, diz Victor Hugo, ‘essa nação quase sempre irá encarar a tradução como um ato de violência contra ela mesma’.”

É, não é brincadeira, não... Em seguida, Lefevere cita alguns exemplos. Entre eles, um do século XIX:

“Enquanto os tradutores no Ocidente tinham as obras gregas e latinas em alta estima, como representando a expressão de culturas de prestígio dentro da visão de mundo ocidental, eles tratavam outras culturas, a que não atribuíam prestígio similar, de uma forma bastante diferente. Edward Fitzgerald, tradutor do Rubaiyat de Omar Khayyam, por exemplo, escreveu a seu amigo E. B. Cowell em 1857: ‘É uma diversão para mim tomar as Liberdades que bem me apetecem com esses persas, que (como penso) não são Poetas o bastante para que se sinta medo de tais excursões, e que realmente precisam de um pouco de Arte para ganhar forma’.” (“Excursões” aqui também no sentido de “desvios”, “digressões”.)

Assim, por exemplo, Fitzgerald eliminou do poema as referências a “pernas de cordeiro”, já que estas não foram consideradas por ele como dignas dos ideais poéticos “ocidentais”. (Detesto essas palavras “Ocidente”, “ocidental”, mas, infelizmente, a maioria dos teóricos europeus e norte-americanos as utiliza.)

Certo... Mas não pensem que os “ocidentais” não tomavam suas “Liberdades” também com os gregos e latinos. O tradutor francês Antoine de la Motte (1672-1731), por exemplo, reduziu a Ilíada em sua tradução à metade do tamanho do original, pela “necessidade de adaptações”. É claro que muitas dessas adaptações são perfeitamente compreensíveis, ainda hoje. As inúmeras repetições de Homero, por exemplo. Será que devem ser traduzidas “fielmente”, mesmo que isso torne o poema pesado e enfadonho?

Um fator de grande importância no século XVIII que é bastante enfatizado por Lefevere é o papel da patronagem (patronato, patrocínio): “Nem todos os aspectos do original são, aparentemente, aceitáveis para a cultura de chegada, ou melhor, para aqueles que decidem o que é ou deveria ser aceitável para aquela cultura: os patronos que encomendam uma tradução, publicam-na ou cuidam de sua distribuição. O patrono é o elo entre o texto do tradutor e o público que o tradutor quer atingir”.

Creio que ainda existe patronagem hoje em dia, sob várias formas, mas, de modo geral, esse papel de “filtragem” passou a ser ocupado pelas editoras.

Enfim, esses são alguns dos temas nos quais eu vou precisar me concentrar nos próximos anos.

4 comentários:

Lara disse...

Seu blog é ótimo!!! Beijos

Cláudia Martins disse...

Obrigada, Lara! O seu também é. Beijos.

VictormS disse...

Bom, quando tenho de traduzir alguma coisa, vou cortando tudo o que não entendo, já que não conheço muito do inglês do francês ou do espanhol e sou preguiçoso demais para ficar procurando os termos desconhecidos... Mas eu também já fiz isso "artisticamente", precisava desenhar um cérebro e acabei desenhando um fígado, que é mais fácil e é o que eu sabia desenhar... Uma ligeira diferença entre eu e o resto dos tradutores, já que eles o faziam de propósito e eu, por não ser tradutor, o faço por incompetência mesmo... Mas fico feliz em saber que eu me daria bem em séculos passados... Acho.

Cláudia Martins disse...

Ahahaha, é isso aí. Talvez você se desse bem ainda hoje. Mas em séculos passados (basicamente antes do século XIX) talvez você fosse elogiado pelo seu método.

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