sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O retorno dos mortos

Para mim tudo começou com Borges, quando ele disse, no célebre ensaio “Kafka e seus precursores”, que o autor “cria seus precursores”. A coisa se complica (labirintos…) se pensarmos na relação entre Borges e Macedonio. Como diz Luís Othoniel, neste interessante artigo: “Em muitos aspectos, Borges cria Macedonio, não só porque Macedonio é um personagem frequente na obra de Borges, mas também porque o leitor contemporâneo só lê Macedonio depois de ler Borges. Assim, aspectos fundamentais da obra de Borges aparecem na de Macedonio como se fossem a influência do discípulo sobre o mestre. Por exemplo, a premissa de Borges em Kafka e seus precursores (1952) já aparece em um ensaio de Macedonio publicado em 1910: ‘Necessidade de uma teoria que estabeleça como não é o segundo inventor mas o primeiro que comete o plágio’. Porém, para o leitor de Macedonio, esse seu ensaio de 1910 parece ser um plágio do ensaio de Borges de 1952”.

Em A angústia da influência [1], Harold Bloom aplica à literatura o conceito de apophrades, ou o retorno dos mortos. Na Antiguidade, esse termo indicava os dias nos quais os mortos de Atenas voltavam às casas onde haviam vivido. Um fenômeno semelhante ocorreria com os “poetas fortes”. Os poetas mortos retornam, mas retornam com as cores e as vozes dos poetas posteriores. O estranho efeito daí decorrente é que o sucesso do novo poema faz com que pensemos não que o precursor o escreveu, mas que o novo poeta escreveu a obra do precursor. É como se os poetas fortes estivessem sendo imitados por seus ancestrais. Essa noção é mais radical do que a de Borges, segundo Bloom, porque o precursor se coloca na obra do poeta posterior a ponto de determinadas passagens em sua obra parecerem não como presságios do advento do poeta posterior, mas sim como estando em débito com este, e mesmo (necessariamente) diminuídas pelo seu maior esplendor.

Depois disso tudo, não é de estranhar que Michael Riffaterre [2] admita a possibilidade de se interpretar uma figura presente no monólogo de Molière a partir de uma figura semelhante presente no teatro de Brecht. Ao ler uma obra, o leitor dá continuidade a ela, e a memória do leitor introduz esse tipo de anacronia.

[1] Cito a partir do original: BLOOM, Harold. The anxiety of influence: a theory of poetry. New York/Oxford: Oxford University Press, 1997.

[2] apud SAMOYAULT, Tiphaine. A Intertextualidade. Trad. de Sandra Nitrini. São Paulo: Hucitec, 2008, p. 25.

2 comentários:

VictormS disse...

Gostei!
Lembra alguns questionamentos sobre causa-efeito que nem lembro mais quais eram (lembrar o que não lembro, então não lembrei, né?)

Cláudia Martins disse...

Hahaha, pena que não te lembras. Será que o efeito poderia preceder a causa? Agora fiquei curiosa.

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