sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Em defesa das notas de rodapé

Tenho amigos que odeiam notas de rodapé. O principal argumento que lançam contra elas é: “Se são necessárias, por que não as incorporar ao texto? E se não são necessárias, por que usá-las?”

Até agora eu dava de ombros e tentava, sem muito sucesso, defender as notas de rodapé – principalmente naqueles trabalhos acadêmicos mais longos, como dissertações e teses. Sempre achei que, no fundo isso é uma questão de preferência pessoal, mas eu ficava meio frustrada quando essa discussão das notas de rodapé vinha à tona, porque não conseguia explicar satisfatoriamente a minha preferência.

Hoje, ao reler um capítulo do livro Paratextos Editoriais, do Gérard Genette (tradução do Prof. Álvaro Faleiros), encontrei a perfeita expressão para os meus sentimentos. Sim, eu sei que provavelmente as palavras do Genette não vão fazer ninguém mudar de ideia, mas talvez outros apreciadores das notas de rodapé se identiquem com elas, como aconteceu comigo. Genette (p. 288) diz que não há nenhum absurdo na ideia de se integrar as notas ao próprio texto, mas que, nesse caso, haveria alguma perda ou dano:

O dano evidente, pelo menos do ponto de vista de uma estética classicizante do discurso, é que uma digressão integrada ao texto corre o risco de provocar nele uma hérnia grosseira ou geradora de confusão. A perda pode consistir na eliminação pura e simples desta digressão, às vezes valiosa em si mesma.

Mas a principal perda seria que, ao privar-se da nota, o autor se privaria da possibilidade de um segundo nível de discurso que, às vezes, contribui para dar profundidade ao texto.

A principal vantagem da nota é, com efeito, disponibilizar no discurso efeitos pontuais de nuança, de surdina, ou como se diz ainda na música, de registro, que contribuem para reduzir sua famosa e, às vezes, enfadonha linearidade.

As notas oferecem até mesmo a possibilidade de se inverter um argumento, ou acrescentar uma “virada” paradoxal ao texto. Eu mesma já usei notas para obter vários efeitos diferentes, e isso é algo de que eu jamais abriria mão!

2 comentários:

Victor Sant'Anna disse...

Notas de rodapé são as precursoras da navegação por links (hipertexto) da Internet...

Cláudia Martins disse...

É mesmo, Victor! Elas e aqueles índices remissivos ao final de alguns livros.

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